Un peu de bois et d’acier

Por Sidney Gusman
Data: 17 março, 2014

Um peu de bois et d’acierEditora:Vents D’Ouest – Edição especial 

Autor: Chabouté (roteiro e desenhos).

Preço: € 30,00

Número de páginas: 336

Data de lançamento: Setembro de 2012

Sinopse

A incrível história de um banco de praça de madeira e aço. Ou melhor, das tantas vidas que o cercaram ao longo do tempo.

Positivo/Negativo

Todo desenhista de quadrinhos busca, durante a carreira, evoluir na narrativa. Ou seja, na forma como sua arte conta a história do roteiro, na (dura) missão de transmitir ao leitor sensações de movimento.

Não são poucos os artistas que têm traços estupendos, mas pecam na narrativa. Agora, se já é difícil alcançar esse objetivo quando os personagens são humanos, animais, veículos etc., imagine quando o protagonista do seu álbum é um banco de praça, um pedaço de madeira e aço (em francês, Um peu de bois et d’acier).

E quando a história oferece pouquíssimas opções de enquadramento (afinal, o banco é fixo no chão) e tem, só de quadrinhos, 328 páginas. E todas sem um único balão de texto.

Pois o francês Chabouté – um ilustre desconhecido no Brasil, infelizmente – não apenas dá uma aula de narrativa, com um desenho lindo, todo em preto e branco, como elabora uma trama tão simples quanto emocionante.

O autor constrói toda a narrativa baseada na passagem do tempo ao redor do banco. E faz uso das tantas pessoas que passavam por aquela praça e, de alguma forma, usufruíram dos serviços daquele objeto imóvel.

Assim, Chabouté vai contando não uma, mas várias histórias ao mesmo tempo. E, para isso, precisa de apenas alguns flashes dos personagens aqui e acolá.

Tem o casal idoso que sempre senta no banco para dividir um doce. Tem o executivo que passa invariavelmente apressado. Tem o skatista que o utiliza como obstáculo em suas manobras. Tem o mendigo que é sempre enxotado pelo policial, pois naquele espaço público não se pode deitar. Tem o solteiro em busca de uma namorada. Tem a moça que engravida e o parceiro dá no pé. Tem o músico ruim, que não consegue nem míseros trocados quando se acomoda ali para tocar. Tem o cachorro vira-lata, que sempre faz o seu xixi numa das pernas metálicas. Tem o “zelador” que lhe dá uns retoques após vandalismos. E tem alguns outros. (Veja imagens abaixo.)

Para mostrar ao leitor a evolução (ou involução) da vida de cada um desses coadjuvantes, em histórias que vão do drama ao humor, passando pelo romance e a ação, Chabouté faz excelente uso do clima. O banco aparece em dias ensolarados, de chuva, coberto de neve e cercado de árvores ora floridas, ora com as folhas caindo. E também constrói cenas diurnas e noturnas.

Chega a ser espantoso como o autor consegue prender a atenção do leitor com tão poucos enquadramentos à disposição. Mas ele acha ângulos inusitados para mostrar os coadjuvantes do banco, utiliza páginas em branco com muita propriedade, quando se faz necessário, e dá um banho no uso das técnicas de claro e escuro – há passagens em que opta por usar só silhuetas, por exemplo.

Perto do final, o que parecem ser políticos (eles adoram pracinhas, todos sabemos) chamam um “especialista”, que aposenta o velho banco de madeira e aço e o substitui por um todo “modernoso”. O resultado: a peça passa a ser meramente decorativa para todos aqueles coadjuvantes.

Mas Chabouté não deixaria o seu “herói”, depois de tantas intempéries, terminar os seus dias num depósito de sucata. O final é até previsível para leitores veteranos, pois é amarrado com a primeira cena mostrada na história. No entanto, isso não diminui em nada o seu brilho.

A edição da Vents D’Ouest é impecável, com uma capa cartonada protegida por uma guarda interna e impressa em papel off-set. Fica a torcida para que alguma editora brasileira se anime a trazer para o nosso mercado esta fantástica história de uma testemunha silenciosa de tantas histórias, mas que diz tanto.

Classificação

5,0

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  • Allan Chaves

    PRECISO ler essa hq!