Thermæ Romæ # 2

Por Audaci Junior
Data: 22 novembro, 2013

Thermæ Romæ # 2Editora: JBC – Série mensal em seis edições

Autora: Mari Yamazaki (roteiro e desenhos) – Originalmente publicado em Terumæ Romæ (Tradução de Drik Sada).

Preço: R$ 19,90

Número de páginas: 192

Data de lançamento: Outubro de 2013

Sinopse

Roma, 128 d.C. O arquiteto Lucius Modestus continua com seus problemas de inspiração profissional. Para solucioná-los, acidentalmente ele é transportado para o Japão nos dias atuais toda vez que mergulha em uma terma.

Com o prestígio acumulado devido às soluções criativas assimiladas pela cultura dos “Caras Achatadas”, ele se tornou o fiel escudeiro do Imperador Adriano e teve que ficar longe de casa por três anos.

Agora, ao retornar para seu lar, Lucius descobre que sua esposa o abandonou. Se por um lado a sua fama como gênio das casas de banho só cresce, sua vida pessoal declina na mesma proporção.

Positivo/Negativo

Quando se tem uma série inusitada sobre os banhos termais entre a Roma Antiga e o Japão moderno, a tendência é achar que a autora não terá muita imaginação e a fonte criativa se esgotará na medida em que a saga de Lucius Modestus avança.

Mas não é o que se vê neste segundo volume de Thermæ Romæ, em que Mari Yamazaki amplia os horizontes da reflexão e de elementos em relação ao tema.

Em relação aos capítulos do primeiro volume, quem não está habituado com a leitura oriental das páginas e balões deve atentar para uma certa repetição de situações, como um modelo a se seguir, um “estilo” narrativo bem comum nos quadrinhos japoneses.

Mesmo apresentando variações, cada novo capítulo mostra um problema enfrentado pelo arquiteto, que sempre trata de cair ou se afogar em uma terma para “emergir” através do tempo e espaço para encontrar uma solução.

Para a leitura do mangá “fluir” melhor, deve-se aceitar essa “cartilha” oriental e não exigir tanto da coerência e do realismo, pois trata-se de uma obra com um viés cômico, despretensioso e – por vezes – surrealista.

Afinal, mesmo tendo um pé na História (com “H” maiúsculo mesmo), a HQ tem uma base ficcional que altera a realidade e técnicas romanas.

Na verdade, o que torna o mangá interessante é a reflexão obtida por uma cultura praticamente nula para os brasileiros: o relaxamento por meio dos banhos quentes.

Nesta edição observam-se mais situações em que povos tão distintos e separados (no tempo e espaço) quanto os romanos e japoneses têm um ritual e respeito pela prática de se relacionar socialmente no momento de asseio.

Tão interessante quanto o mote do capítulo são os textos de Yamazaki no final de cada parte. Num tom leve e intimista, ela revela alguns causos envolvendo diferenças culturais de curiosos estrangeiros, como senhorinhas que querem subir o Monte Fuji ou respeitáveis músicos de uma orquestra italiana em toboáguas.

Logo no primeiro tomo, o leitor descobre uma curiosidade obscura entre os dois povos, o culto ao falo. Na Roma Antiga, as pessoas ostentavam pingentes de formato fálico e veneravam esculturas do deus da fertilidade, Príapo, que apresentava o órgão sexual como um modelo da G Magazine.

Tal assunto remete ao ótimo seriado televisivo da HBO Roma, no qual “pichações” de falos e outros elementos sexuais faziam parte da cidade (e da abertura da série).

O leitor descobre também que até no pudico Japão o culto à fertilidade era praticado naturalmente antes que os “conceitos ocidentais” começassem a se enraizar no país.

Os efeitos das viagens temporais de Lucius também alteram o passado. As práticas publicitárias e a conservação das tradições milenares são colocadas na berlinda.

Alguns pontos do enredo – mesmo com a estrutura narrativa nipônica – parecem se tornar mais forçados do que deveriam. Um exemplo é quando o protagonista, que não entende nada da língua dos “Caras Achatadas”, tem a perspicácia de discernir os métodos para atrair clientes.

Mesmo assim, Thermæ Romæ mantém a atenção para a próxima edição, com o belo e detalhista traço de Mari Yamazaki.

Além do papel offset de boa gramatura, capa com orelhas e aplique de verniz, a edição traz as primeiras páginas (em couché) coloridas, outra prática comum nos mangás.

Outro destaque é a tradução e notas explicativas da Drik Sada. Para se ter noção do seu cuidadoso trabalho, em determinado momento, uma senhora limpa uma casa de banho cantarolando Banho de espuma, de Rita Lee. Antes de o leitor “torcer o nariz” para a adaptação, Sada explica que procurou a autora – que teve uma passagem por Portugal e conhece a nossa língua-pátria – e a própria indicou tal música para a versão nacional.

Para diferenciar as notas da tradutora e as notas da autora (mostradas com o uso do asterisco), a JBC optou por uma fonte diferente, mas que dificulta – e muito – a leitura.

Premiado lá fora, Thermæ Romæ é uma excelente aposta da editora de trazer novidades japonesas e não apenas o “miojo” da produção da terra de Osamu Tezuka. Recomendado também para leitores que não estão acostumados com a leitura oriental ou à estrutura de tal narrativa.

Classificação

4,0

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