The Mire

Por Daniel Lopes
Data: 17 março, 2014

The MireEditora: Independente – Edição especial

Autora: Becky Cloonan (texto e arte).

Preço: US$ 5,00  ou US$ 0,99 (versão digital)

Número de páginas: 24

Data de lançamento: Maio de 2012

Sinopse

Na véspera de uma importante batalha, o jovem escudeiro Aiden recebe de seu superior, Sir Owain, a missão de entregar uma carta em um castelo decadente.

Para chegar ao seu destino, o garoto precisa atravessar um pântano considerado mal-assombrado. Uma aterrorizante jornada que pode trazer à tona segredos há muito tempo escondidos.

Positivo/Negativo

A competência como desenhista já possibilitou a Becky Cloonan colaborar com as principais editoras dos Estados Unidos, em uma grande sorte de publicações. Merecem destaque: Jennie One e Conan (Dark Horse), Demo e American Virgin (Vertigo), sempre em parceria com um roteirista.

Paralelamente aos seus compromissos com editoras, a autora vem desenvolvendo uma sólida bibliografia independente, na qual, muitas vezes, cuida de todo o processo criativo, inclusive os textos.

Leitores mais atentos se lembrarão da antologia 5, da qual ela participou junto a Rafael Grampá, Gabriel Bá, Fábio Moon e Vasilis Lolos, ou de Pixu (Devir, 2009), novamente ao lado dos companheiros Bá, Moon e Lolos.

Em 2011, Cloonan iniciou uma trilogia de histórias de fantasia medieval, com muito romance e toques sobrenaturais: Wolves (2011), The Mire (2012) e Demeter (2013). Elas não possuem ligações diretas em termos de roteiro ou continuidade, apenas se assemelham pela temática e ambientação. Ou seja, funcionam como obras únicas e podem ser lidas independentemente da ordem de publicação.

The Mire, que foi laureada com o prêmio Eisner em 2013, na categoria Melhor Edição Única, é um exemplo excelente do porquê Becky Cloonan é uma das melhores quadrinhistas da atualidade.

Em apenas 24 páginas, ela cria todo um mundo de encantos e aventura, ao melhor estilo Espada e Feitiçaria, conduzindo a trama e usando recursos narrativos com mestria.

A primeira coisa que chama a atenção é a arte exuberante e detalhada, toda em preto e branco. A vestimenta dos personagens, bem como suas expressões corporais, e todos os cenários percorridos pelo protagonista, que incluem o assombroso pântano e um magnífico castelo, são desenhados minuciosamente, com grande senso de perspectiva.

Desenhos belíssimos orquestrados com grande competência e inventividade, tornando a narrativa muito fluida (a página 23, na qual eventos do passado são mostrados junto ao que acontece no presente, tudo enlaçado por um carinhoso abraço, talvez seja a que melhor exemplifica essa harmonia narrativa).

Há vários casos de diagramação pensada com cuidado para transmitir a emoção certa aos leitores, gerando surpresa, susto e ternura.

Onomatopeias feitas à mão e usadas com muita sabedoria ajudam o leitor a imergir ainda mais na história e colaboram com o ritmo cinematográfico de algumas passagens, em especial a travessia do pântano.

O roteiro parte de uma premissa simples e segue uma estrutura consagrada: um garoto inexperiente precisa enfrentar alguns obstáculos tortuosos para cumprir a missão designada por seu superior, e, no percurso, descobre segredos do passado que podem mudar sua vida para sempre…

Mas é justamente essa simplicidade que mantêm as coisas no eixo e em sintonia. Cloonan sabe o que e como quer contar sua história. E consegue, mesmo dentro dessa estrutura, fazer o leitor se surpreender com o rumo que as coisas tomam – boa parte disso é graças ao inteligente uso dos balões.

The Mire é contada pelo ponto de vista de um narrador que, obviamente, sabe muito mais da história do que revela ao leitor, outro trunfo da obra. A autora não subestima quem está lendo e opta por deixar boa parte da trama acontecer fora das páginas, dando apenas pistas do que aconteceu ou do que acontecerá com os personagens. Muito é deixado para a imaginação e isso permite diferentes leituras e interpretações, o que é louvável.

O desfecho magistral, apresentado em uma desoladora página dupla com apenas dois balões, é daqueles que faz você voltar lá começo e reler tudo de novo, para aí sim, compreender a história como um todo. Um final no qual as peças estranhamente se encaixam, mas nem todas as respostas são dadas.

A edição é bem simples: capa cartão, formato pequeno (13 x 21 cm) e papel de boa qualidade, contendo somente o estritamente necessário: uma história maravilhosa.

Uma edição especial em capa dura, compilando esta trilogia medieval e alguns extras, está sendo impressa sob demanda e pode ser encomendada clicando aqui.

Classificação

4,5

 

• Outros artigos escritos por

.