O Quilombo Orum Aiê

Por Liber Paz
Data: 9 março, 2012

O Quilombo Orum AiêEditora: Galera Record – Edição especial

Autor: André Diniz (roteiro e arte).

Preço: R$ 32,90

Número de páginas: 112

Data de lançamento: Março de 2010

Sinopse

Salvador, janeiro de 1835. Durante os conflitos de uma violenta revolta, três escravos e um presidiário conseguem escapar de seus cativeiros. Juntos, eles partem em busca do lendário quilombo Orum Aiê. Em sua jornada, aprenderão muito uns com os outros. Especialmente o jovem Capivara, líder do grupo.

Positivo/Negativo

Em 25 de janeiro de 1835, um grupo de escravos muçulmanos, conhecidos como malês, rebelou-se na capital da Bahia. Aproveitando-se das celebrações religiosas do dia, eles empunharam armas e tentaram conquistar a cidade. Foram contidos pelas autoridades.

O episódio ficou conhecido como a Revolta dos Malês.

Abordar temas históricos é um grande desafio para um roteirista. É preciso saber desenvolver a trama, mantendo-se fiel às informações e evitando as armadilhas do enfadonho discurso didático.

A partir disso, André Diniz dá uma aula de roteiro em O quilombo Orum Aiê.

Para começar, o objetivo do autor não é retratar o episódio histórico. Apesar da pesquisa e das informações precisas, a Revolta dos Malês é apenas pano de fundo para a trama principal.

Tudo gira em torno do jovem escravo Vinícius, chamado por todos de “Capivara”, porque se recusa a comer carne. Aliás, o garoto odeia o apelido, mas todos se referem a ele assim, inclusive o escritor Rogério Andrade Barbosa, autor do texto que apresenta o álbum. E este resenhista também. Desculpe, Capivara.

Uma das principais qualidades do álbum está justamente na maneira como os personagens são construídos. Por meio de cativantes diálogos, o leitor vai descobrindo personalidades muito bem definidas e coerentes.

A opção de Capivara pelo vegetarianismo é explicada pelo próprio personagem. Seus motivos são convincentes e sua explanação guarda um tanto de filosofia.

É justamente essa “filosofia inata” do personagem que fascina Antero, um fugitivo da cadeia. Os dois travam uma série de conversas interessantes, questionando sempre os porquês das escolhas de Capivara.

Os caminhos de Antero e Capivara se cruzam justamente após a Revolta dos Malês. A insurreição causa confusão nas ruas e facilita a fuga de escravos e presidiários.

Junto com eles ainda estão Fagundo, Abul e Sinhana.

Fagundo era escravo que trabalhava de barbeiro e se irritava quando o amigo Capivara desandava a “pensar” enquanto varria o chão.

Abul era escravo ioruba, muçulmano, recém-chegado ao Brasil e sem conhecimento algum da língua portuguesa.

Sinhana era escrava que vendia ovos na feira e fazia o coração de Capivara bater mais rápido.

As relações dentro desse grupo são dinâmicas e cheias de tensões interessantes.

Capivara é apaixonado pro Sinhana e vê a moça se enamorar pelo forte Abul. Ela desconfia que Antero é um terrível assassino, enquanto este jura que é inocente de todas as acusações.

Com esses conflitos e diálogos, Diniz mostra um pouco do que era ser um escravo em Salvador na década de 1830. Os costumes, a relação entre patrões e servos, as privações e o sonho de liberdade são representados de maneira surpreendentemente natural dentro da trama.

Tudo isso sem cair em dramas de novela das seis. Diniz apresenta personagens com dimensões que extrapolam os estereótipos de escravos sofredores. Eles se revelam aos poucos, cativam e surpreendem o leitor.

A arte tem um aspecto de ilustração de cordel lembrando a técnica de xilogravura, a gravura em madeira. A escolha desse estilo é interessante quando se pensa que está sendo utilizada para representar casas, roupas e utensílios de um determinado período histórico.

A opção pela simplificação gráfica em vez de uma arte realista e detalhada ressalta que o álbum não se preocupa em documentar fielmente uma reconstituição histórica. O mais importante são os personagens e suas relações.

Isso não significa, de modo algum, um descuido na pesquisa e nas informações apresentadas, mas sim zelo e talento na criação de uma trama realmente interessante.

O quilombo Orum Aiê é mais um belo trabalho que atesta as qualidades de André Diniz como um excelente contador de histórias.

Classificação

4,5

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.

  • Vitor Kroff

    oi