Os Companheiros do Crepúsculo

Por Rodrigo Emanoel Fernandes
Data: 26 julho, 2004

Os Companheiros do Crepúsculo # 1 - O Sortilégio do Bosque das BrumasEditora: Meribérica/Liber – Série em três volumes

Autores: François Bourgeon (roteiro e desenhos).

Preço: Fora de catálogo, disponível apenas em sebos, preço variável

Número de páginas: Volume 1: 48; Volume 2: 48; Volume 3: 144

Data de lançamento: Entre 1986 e 1990

Sinopse

O Sortilégio do Bosque das Brumas – Século XIV, plena idade média, Europa feudal. Provavelmente, a pior época e lugar para uma mulher viver, especialmente uma garota como a bela ruiva Mariotte, criada pela avó feiticeira, versada nas tradições das religiões antigas, transformadas em lendas pelo advento do cristianismo.

Vivendo isolada com a avó, Mariotte é mal vista pelos habitantes da aldeia próxima, especialmente por um detestável mancebo de nome Anicet, que não cansa de atormentá-la. Até que um acaso do destino a leva a um inesperado encontro com uma horda de soldados deserdados nas matas.

Furiosa com Anicet, Mariotte indica a direção da vila aos soldados, e o resultado é um saque violento e o massacre de cada homem, mulher e criança, do qual, ironicamente, o único a escapar vivo é Anicet.

Declarada maldita pela avó, por ser responsável por tanto sangue derramado, Mariotte inadvertidamente torna-se uma peça importante num jogo de proporções míticas que começa a ser travado quando ela e Anicet tornam-se servos de um misterioso cavaleiro de rosto deformado que vaga pelo mundo numa cruzada pessoal contra as forças do mal.

O cavaleiro, antes cruel e impiedoso, traz na consciência a responsabilidade pela morte da única mulher que o amou e uma maldição que o declara um joguete da guerra ancestral das três forças: a branca, a rubra e a negra. Seu escudo ostenta as cores das forças da vida e seu rosto arruinado espelha as marcas de uma vida dedicada à morte e à destruição.

Ao atravessarem o Bosque das Brumas, os três improváveis companheiros acabam capturados por uma raça de pequenos duendes, que obrigam o cavaleiro a caçar um monstro que assombra a região antes que Mariotte e Anicet sejam transformados em banquete da aldeia.

Apesar do perigo iminente, o cavaleiro encara o desafio sem medo, por acreditar estar apenas sonhando. Embora não deixe de ter uma certa razão, as fronteiras entre o sonho e a realidade são muito mais tênues do que se imagina.

Os Olhos de Estanho da Cidade Glauca – Temporariamente desgarrada de seus companheiros de viagem, Mariotte conhece uma menina de cabelos negros chamada Yuna, igualmente criada por uma avó feiticeira e com o dom de, aparentemente, realizar milagres.

Após causar, inadvertidamente, a morte de sua avó num incêndio, Yuna parte com os companheiros e um menestrel numa sombria aventura. O cavaleiro decide ajudar os dois duendes exilados do volume anterior em sua guerra contra uma raça de criaturas abomináveis que servem à força negra: os Dhuards.

Para destruir a raça maligna, deve-se devolver a jóia chamada Eclipse Azul à Dama Branca, mantida prisioneira na Cidade Glauca dos Dhuards. Uma jornada repleta de perigos e horrores que se passa, como antes, no interior dos sonhos dos três aventureiros, mas cuja realidade, tanto simbólica quanto concreta vai muito além das fronteiras dos devaneios.

O Último Canto das Malaterre – Após uma longa jornada, os três amigos chegam à cidade de Montroy onde, finalmente, o cavaleiro descobre toda a verdade sobre a linhagem de sua falecida amada Blanche e suas irmãs Carmine e Neyrelle. Uma dinastia de mulheres descendentes de fadas e sereias, personificações das forças que regem o universo e o gênero humano: o branco, o vermelho, o negro, como as três faces da Deusa, tornada obscura e sinistra por um emergente império das crenças cristãs.

Numa narrativa complexa, repleta de símbolos, sinais e mistérios, Mariotte conhece novos e fascinantes personagens: uma trupe de comediantes, um peregrino caçador de lobos, um enamorado noviço e um estranho ancião cavalgando solitário pelas colinas, todos conduzindo-a, de uma forma ou de outra, a uma intrigante jornada paralela à de seu mestre que, tragicamente, dirige-se para a morte, não apenas sua, mas de toda uma época.

Os enigmas, aparentemente insolúveis, dos volumes anteriores são amarrados de formas surpreendentes, fechando a narrativa e dando um sentido completo à obra como um todo que, por meio de protagonistas que espelham simbolicamente diversos aspectos da idade média e suas contradições, traça a história do fim de uma época e o nascimento da Idade Moderna, para melhor ou para pior.

Os Companheiros do Crepúsculo # 2 - Os Olhos de Estanho da Cidade Glauca Os Companheiros do Crepúsculo # 3 - O Último Canto das Malaterre

Positivo/Negativo

“Esta durou, diz-se, cem anos… nada a distinguiu verdadeiramente daquela que a precedeu nem da que se lhe seguiu… como o granizo ou a peste, a guerra abate-se sobre os campos quando menos se espera, de preferência, quando os trigais estão pesados e as jovens são belas…”

Com essas encantadoras palavras (e algumas variações que reforçam as impressões cíclicas da obra), François Bourgeon dava início a cada episódio de sua fascinante tragédia sobre a Idade Média, sem dúvida, uma das mais perfeitas HQs de todos os tempos, digna de figurar entre as mais importantes obras históricas de qualquer mídia.

Calcado numa cuidadosa e exaustiva pesquisa, Os Companheiros do Crepúsculo é um clássico da HQ européia. Uma dessas obras-primas que se prestam a demonstrar o potencial quase ilimitado da história em quadrinhos como forma de expressão artística, capaz de calar a boca dos, ainda presentes, detratores que insistem em considerá-la como uma arte menor.

Infelizmente, a trilogia está fora de catálogo, e é muito difícil de ser encontrada em sebos. Além disso, a obra é pouquíssimo mencionada atualmente e apenas um reduzido número de fãs sabe de sua existência, o que é pra lá de injusto.

Numa comparação rápida, Companheiros do Crepúsculo encantaria facilmente os apreciadores de romances como As Brumas de Avalon e O Senhor dos Anéis, que também narram, a seu modo, um momento de transição entre duas visões de mundo – no caso do best-seller de Marion Zimmer Bradley, trata-se inclusive da mesma transição entre as antigas religiões e o cristianismo, embora Bourgeon tenha focado um período posterior, em que as velhas crenças já se tornaram lendas e mitos, apócrifos cuja influência no espírito humano se dá num nível de inconsciente coletivo, soterrado além das fronteiras do sonho, onde o cavaleiro busca suas revelações.

Os dois primeiros álbuns, cujas tramas se passam no interior de sonhos compartilhados pelo cavaleiro, por Mariotte e pelo detestável Anicet, funcionam quase como prólogos (na verdade, o termo mais apropriado seria presságios) do decisivo terceiro volume, quatro vezes maior que os anteriores, no qual o realismo histórico ganha significados gigantescos, graças ao surrealismo das partes iniciais.

Símbolos, sinais, enigmas, recorrências permeiam toda a trama, realçando o caráter arquetípico das três forças que se fazem sentir de diversas formas (cores, imagens, coincidências), mas principalmente por meio das fascinantes personagens femininas que, de uma forma ou de outra, com evidência ou não, surgem como trindades: a loira (a branca), a ruiva (a vermelha, com destaque para Mariotte) e a morena (a negra, magnificamente encarnada pela cigana Anaïs no terceiro volume e pela menina Yuna, no segundo); as três faces da Deusa – a Lua, o Sol e a Escuridão -; a alma, a vida e a morte; o amor, a paixão e a dor; a luz, o fogo e as trevas; o número de associações é incalculável, os incontáveis aspectos se complementam sem que o autor jamais precise ser óbvio.

Os personagens são arremessados de um lado para o outro como joguetes de um destino inalienável, conduzidos pelos sábios cujo conhecimento não pode salvá-los da catástrofe que se avizinha a cada momento, e que não se pode evitar.

Assim, o cavaleiro prossegue em sua jornada mítica ao lado das três irmãs Malaterre, cujas origens lendárias as colocam num território além da especulação humana, mas não além do fogo, da paixão, do espírito e da morte que, como uma aranha sedenta, atrai o bravo lutador para sua teia, na culminação de um destino que não é apenas de um homem, mas de uma época.

Sem nem sequer terem consciência disso, os demais personagens funcionam como catalisadores dos acontecimentos que levam a esse destino (sendo o mais inesperado o papel final desempenhado por Anicet, cujo último e heróico ato surpreendeu a ele próprio muito mais do que qualquer outro imaginaria), mas apenas Mariotte (talvez) teria condições de evocar um sentido para tudo o que acontece, coisa que ela – sabiamente – jamais tentaria fazer.

Uma obra magnífica e inesquecível, capaz de sobreviver a infinitas releituras, que sempre revelam um aspecto novo, um elemento antes despercebido. Os desenhos de Bourgeon são de uma riqueza de minúcias absurda, mas não como o detalhismo supérfluo e auto-reverente a la super-heróis da Image Comics. Cada quadrinho reproduz com perfeição as inúmeras facetas da Idade Média: vestimentas, arquitetura, arte, paisagens, tipos humanos… O leitor sente-se transportado para outra época, o que torna Os Companheiros do Crepúsculo uma importante obra de referência para quem tem interesse em pesquisar esta época, podendo ser tranqüilamente adotada como material didático em escolas.

Essa viagem no tempo ganha um interessante reforço graças à tradução da editora lusitana Meribérica/Líber, cujo português culto e até antiquado (que torna a leitura um tanto difícil, mas extremamente recompensadora) soa adequadamente antigo e lendário aos ouvidos impacientes de hoje. Uma verdadeira delícia literária.

Quanto às edições em si, são simplesmente perfeitas: papel de primeiríssima linha, encadernação luxuosa, formato gigante, um primor que, infelizmente, tornava os álbuns caríssimos mesmo na época de seu lançamento, ainda mais por serem importados. Mas a leitura valia cada centavo.

Com tantos pontos positivos e nenhum negativo (é um desafio algum cristão encontrar um!), nada mais resta senão a nota máxima, já que não é possível dar mais. E recomendar aos leitores para, se surgir a oportunidade, não hesitem nem um segundo em adquirir essas relíquias.

O mesmo vale para os cinco volumes de Os Passageiros do Vento, do mesmo autor e editora e igualmente raros.

Classificação

5,0

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