Obras Completas – Alberto Breccia – Volume Uno

Por Arthur Dantas
Data: 19 dezembro, 2008
MATERIAL IMPORTADO

 

Obras Completas - Alberto Breccia - Volume UnoEditora: Doedytores – Edição especial

Autores: Carlos Trillo e Juan Sasturian (roteiro) e Alberto Breccia (desenhos).

Preço: não consta da edição

Número de páginas: 160

Data de lançamento: Abril de 1994

Sinopse

Primeiro volume do que se pretendia ser a edição das obras completas do quadrinhista uruguaio Alberto Breccia (1919-1993) – foram publicadas apenas dois.

Neste livro há todas as 13 histórias “expressionistas” intituladas Buscavidas, escritas por Carlos Trillo sob encomenda de Breccia. São tramas curtas, assemelhadas às fábulas morais pessimistas, nas quais o personagem que dá nome à série participa de pequenos “causos” que dimensionam a miséria humana.

Completando o volume, seis contos de autores latino-americanos ganham versões pelas mãos do escritor Juan Sasturian e de Alberto Breccia. Os textos são de Juan Rulfo, Aejo Carpentier, Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, Juan Carlos Onetti e Guimarães Rosa.

Positivo/Negativo

A arte de nossos vizinhos latino-americanos nunca foi devidamente apreciada no Brasil. A afirmação é categórica e poderia ser explicada sob diversos ângulos que dariam razão de ser para tal fato. A quase nula publicação dos trabalhos de Alberto Breccia (para muitos especialistas de quadrinhos, o maior artista visual do gênero em nosso continente) dá a dimensão do descaso em relação à arte dos países latinos de língua espanhola.

“El viejo”, como foi carinhosamente conhecido Breccia por seus pares, tem trajetória particularíssima e neste álbum deixa à vista duas facetas fundamentais de sua arte: a percepção aguda e transformadora, que redimensionava (e não apenas ilustrava) o texto de seus colaboradores e dialogava com seu tempo e continente ao prestigiar obras de literatura local; e seu espírito experimental, que marcou parte de sua produção na maturidade, representada pela série Buscavidas, realizada em meados da década de 1980.

Ao contrário do trabalho que está sendo publicado no Brasil, Che (Conrad Editora), realizado com outro mestre, Oesterheld, no qual o leitor pode conhecer em seu esplendor seu estilo mais nitidamente brecciano, nesta edição, o leitor descobre o que seria a “exceção à regra”.

O que liga a primeira edição de suas Obras Completas com o restante de seu trabalho é a preocupação com uma temática regional e atual, muito mais do que uma preocupação estética. Se usa da fabulação e da fantasia tão presente na linguagem das HQs, é para tratar do real, do que se passa a sua volta. Não à toa, sua obra é analisada com grande vigor e tida pela parcela culta da população portenha como das mais significativas e emblemáticas de seu tempo.

Colocadas essas informações, vale salientar ao leitor brasileiro, pouco interado sobre o tema, que a produção portenha foi influência decisiva nas predileções de estilo, gênero e temáticas de Hugo Pratt, que viveu algum tempo por aquelas paragens e participou ativamente da cena de quadrinhos local. Note: todas essas características caberiam perfeitamente para descrever o próprio mestre italiano, criador de Corto Maltese.

De tão peculiar, a série Buscavidas encontra dificuldades para ser explicada, seja pelo caráter visualmente experimental (mesmo para os padrões do próprio Breccia), seja pelo que apresenta de novidade para o próprio gênero quadrinhos.

E como o mestre sabia a diferença entre homens e crianças, não há arroubos pós-modernos em seu trabalho; há o respeito clássico pela linearidade narrativa, quadros sempre bem definidos, sem truques e tiques narrativos (ou seja, o narrador é visível, não busca-se problematizações metalingüísticas), o uso de recordatórios e balões é convencional.

É dentro dessa suposta “normalidade” que Breccia transgride, respeitando o que há de fundamental na linguagem das HQs. Ele cria tal delírio visual que força as limitações que parece respeitar. Não parece mera casualidade o gosto do mestre uruguaio pelas gravuras de Goya ou pela literatura de um Marquês de Sade – há comunhão de intenções em relação a ambos.

Os desenhos da série Buscavidas são fluídos, encontram uma unidade ferrenha entre o discurso textual e o visual, o negro profundo da série envolve os cenários e a silhueta dos personagens. E muitas vezes a escuridão mostra mais sobre a ação do que a parte branca dos quadros.

Poderia ser complicado, mas de forma e intensidade equivalente, Breccia realiza o mesmo que Will Eisner, com uma diferença fundamental: o pai do Spirit era plenamente figurativo, voltado ao que o desenho pode apresentar como “mimesis fantasiosa do mundo”. Breccia, ainda que respeitasse profundamente a figuração tão essencial à linguagem das HQs, era dado ao expressionismo plástico e dialogou com as diversas vanguardas artísticas de seu tempo, sempre buscando jogar a linguagem dos quadrinhos a novos patamares.

A temática das pequenas fábulas morais é triste e evidencia o que há de deprimente e mesquinho na alma humana. Curioso notar, que por mais que o personagem Buscavidas se alimente das misérias humanas, ele ainda é atraente, agradável. Muito antes dos programas de mundo cão da TV, Breccia soube explorar esse fascínio paradoxal que o homem tem pela desgraça alheia.

Então, surgem: uma mulher pobre que inveja uma vizinha que usa os supostos dotes espirituais de sua avó aleijada, o homem que mutila a mulher de forma que não possa ver nem andar atrás de outros homens e por aí vai. Breccia, por meio desta série, como apontaram alguns críticos, realizou um olhar crítico e mordaz sobre a ditadura argentina de então.

Nas adaptações de contos, o desenhista varia seu estilo de acordo com a temática e o estilo de cada autor. Em Roma, como os romanos.

Breccia, que adaptou com brilho e destaque autores como H.P Lovecraft e Edgar Allan Poe, buscou o que eles acabavam por falar diretamente a seu universo, a seu tempo, sempre privilegiando um pessimismo em relação ao mundo. E, ao contrário do que isso possa indicar, Breccia era um homem movido pela esperança e confiança no potencial humano. Tratava do que havia de repulsivo na alma humana talvez para tornar mais digno cada pequeno ato honrado de seus contemporâneos, como afirmou o crítico Guillermo Saccomano.

O paradoxo dessas adaptações reside no fato de que, sendo completamente fiel ao enredo original, transmuta a percepção original dos contos de maneira tão radical que acaba por se tornar co-autor de cada um dos contos.

Guimarães Rosa, por exemplo, em um dos vôos mais plenos de Breccia em toda a edição, ganha nos desenhos ousados, mudando de estilo a cada quadro, ares portenhos, fazendo com que seu conto se tornasse quase um irmão gêmeo do de Jorge Luís Borges, apresentado na mesma edição.

O deslumbre visual é tão intenso em ambas as histórias, que o leitor se apanha deliciando a narrativa visual de Breccia por alguns momentos sem se darmos conta do que o texto diz. Em um mesmo quadro, o desenhista consegue criar uma aquarela em que dois homens duelam (e dançam ao mesmo tempo – é possível “completar” o movimentos dos personagens na mente, tamanha a leveza e o senso de movimento) enquanto, no primeiro plano, há a silhueta de um homem endurecido pelo tempo; e cada uma das hachuras da arte indica o sofrimento do passar dos anos. Coisa de gênio.

Breccia encanta e transmuta o olhar do leitor. E nisso reside o poder do artista. Essa multiplicidade de leituras que seus desenhos proporcionam faz com que seu trabalho o coloque ao lado dos grandes mestres dos quadrinhos, como Lee Falk, Will Eisner e outros.

E é necessário olhar apenas uma página de qualquer um de seus trabalhos, seja os clássicosPerramusEternautaSherlock Time ou os mais experimentais, como os deste álbum, para que a perplexidade e o deslumbre envolva o leitor. Um artista definitivo a ser publicado por aqui.

Classificação

5,0

Arthur Dantas, redator do site e revista +Soma

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