Eye of The Beholder e Mind’s Eye

Por Marcelo Alencar
Data: 18 fevereiro, 2011

Eye of The BeholderEditora: NBM Publishing – Edições especiais

AutoresPeter Kuper (roteiro, desenho e arte-final).

Preço: US$ 10.95 e US$ 11.95

Número de páginas: 96 e 128

Data de lançamento: 2000

Sinopse

Duas coletâneas de trabalhos “mudos” (sem qualquer balão de texto) do norte-americano Peter Kuper.

Positivo/Negativo

Peter Kuper nunca escondeu seu fascínio pelos trabalhos do cubano Antonio Prohias. Além de suceder o cartunista latino, já falecido, na produção da tira Espião x Espião para a revista Mad, ele se mantém fiel à tradição dos quadrinhos mudos, característica marcante de sua obra.

Dois bons exemplos são o álbum Speechless (editado pelaTopshelf), inédito no Brasil, e a minissérie O Sistema, lançada nos Estados Unidos pelo selo DC/Vertigo e traduzida para o português pela Abril Jovem num volume único.

Nos livretos Eye of the Beholder e Mind’s Eye, Kuper, explora narrativas curtíssimas, com forte teor de crítica social – outra de suas predileções. E não para por aí: ele desafia o leitor a interagir com as histórias, adivinhando seu final. E as duas obras estão juntas nesta resenha porque o autor as define como parte de A collection of visual puzzles (Uma coleção de quebra-cabeças visuais).

A cada duas páginas, o autor desenvolve um enredo completo. Nas pranchas de numeração ímpar há quatro cenas cuja conexão nem sempre permite deduções simples. No verso delas, uma imagem de página inteira trata de fazer a “amarração” do raciocínio, revelando a lógica da trama.

Mind's EyePor exemplo: uma sequência escancara a boa vida de um milionário, que saboreia um coquetel à beira da piscina, exibe a fachada de sua mansão, viaja a bordo de um carrão e navega num iate de luxo. Na página seguinte, um desfecho nada óbvio: o suposto ricaço aparece agora vestido em andrajos, com olhar angustiado, segurando um bilhete de loteria enquanto constata, pela TV, que seu número não foi premiado. Fim do sonho.

Sem recorrer a recordatórios nem balões de diálogo ou pensamento, o quadrinhista convida o público a experimentar pontos de vista inusitados sobre profundas questões ambientais, trabalhistas, éticas, sexuais, bélicas, tecnológicas, científicas – e outras mais corriqueiras, porém não menos instigantes.

Com o mesmo traço estilizado e nervoso empregado em livros como Desista! e A Metamorfose – adaptações de textos de Franz Kafka editados no país pela Conrad -, Kuper emula xilografias e outras técnicas de impressão artesanais.

Sua estética também remete ao grafite, arte de rua que dialoga com os gibis independentes e celebra a liberdade criativa. Exceção heroica que se destaca dos traços homogêneos e sem personalidade promovidos pelas linhas de montagem dos grandes estúdios.

Por conta dessa unicidade, Eye of the Beholder foi a primeira (e única) tira de quadrinhos a desfilar nas páginas do sisudo jornal norte-americano The New York Times, resistente ao quadrinhos regulares desde a sua fundação, em 1851. Um feito notável: era 1993 e o periódico queria uma tira que não tivesse personagens recorrentes, enquanto Kuper apresentou em sua proposta um olhar diferenciado sobre “a cidade”, o meio urbano. Um casamento perfeito.

O aspecto negativo fica por conta da improbabilidade de que um material tão inteligente e relevante alcance o leitor brasileiro por intermédio de alguma editora nacional. O jeito é recorrer ao velho eBay.

Classificação

4,5

Marcelo Alencar é jornalista responsável, entre outros trabalhos, pelos textos editoriais da coleção As Obras Completas de Carl Barks

• Outros artigos escritos por

.