Era a Guerra de Trincheiras

Por Thiago Borges
Data: 6 julho, 2012

Era a Guerra de TrincheirasEditora: Nemo – Edição especial

Autor: Jacques Tardi (texto e arte) – Originalmente publicado em Le Trou d’obus (1984) e C’était la guerre des tranchées (1993).

Preço: R$ 49,00

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Novembro de 2011

Sinopse

Ganhadora de prêmios internacionais, incluindo dois Eisner, em 2011 (Melhor trabalho baseado na vida real e Melhor edição norte-americana de material internacional), Era a Guerra de Trincheiras mostra a situação brutal e desumana dos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial.

No traço marcante do francês Jacques Tardi, esta contundente HQ se revela um relato realista e uma indispensável denúncia do absurdo de todas as guerras.

Positivo/Negativo

“A única glória na guerra é sobreviver”. Samuel Fuller, um dos mais importantes diretores da história do cinema norte-americano e mundial, sabia muito bem que não existe herói quando homens pegam em armas para se enfrentar – ele serviu na Segunda Guerra Mundial.

Se a guerra é a parte mais baixa da história da humanidade, torna-se obrigação do artista retratá-la como tal. Em Era a Guerra de Trincheiras, o mestre Jacques Tardi não dá trégua ao leitor: cria uma obra pesada e depressiva, com o claro intuito de desnudar toda a degradação humana por trás de um conflito armado.

Como bem comenta Tardi no prefácio da luxuosa edição da Nemo, este trabalho não possui fins históricos. Interessam menos os grandes momentos da Primeira Guerra Mundial e os números oficiais de mortos do que o homem e seus sofrimentos. O autor narra os fatos, baseados em relatos “contestáveis ou não, alguns duvidosos ou contraditórios”, pelos olhos daqueles que lutaram, e morreram, no front.

Não há um personagem central em Era a Guerra de Trincheiras. Dividida em diversos capítulos curtos, que mostram soldados comuns lutando pela sobrevivência e encontrando, inevitavelmente, a morte, a obra possui como verdadeiro protagonista o horror, o medo – ressaltando que e a guerra aflorasse os piores sentimentos no homem.

Foi ali, entre 1914 e 1918, que se deu a industrialização da morte: quem imaginaria, ao longo das Revoluções Industriais dos Séculos 18 e 19, que a máquina seria usada para tirar vidas em larga escala? A história da humanidade, portanto, estava fadada a nunca mais ser a mesma.

Se as tramas contadas talvez não sejam tão acuradas, como o próprio Tardi insinua, a pesquisa feita por ele, com a preciosa ajuda do historiador francês Jean-Pierre Verney, mostra-se monumental: mais de 70 obras consultadas, entre livros e filmes, para recriar com fidelidade a vida nas trincheiras – e fica fácil encontrar referências a algumas delas, como o livro Paths of Glory, de Humphrey Cobb, no qual foi baseado o clássico longa-metragem de Stanley Kubrick, Glória Feita de Sangue.

O impressionante nível de detalhes dos desenhos – encontrados nos cadáveres espalhados pela lama, nas fardas dos soldados, nos parcos mobiliários dos buracos enfiados nas linhas de frente – deixa a arte livre para transitar entre o traço realista e o caricato.

Os personagens, muitas vezes, olham diretamente ao leitor para falar de si, fazendo com que a obra ganhe forte tom intimista, ainda que trate de um assunto relevante a todos.

A guerra não é feita de grandes momentos, mas sim de uma rotina cansativa e brutal para corpo e mente. Não é constituída de heróis, mas de homens como aquele que grita pela esposa quando está prestes a morrer, de outro que não esquece o rosto das pessoas que matou, daquele que deixa a gangrena tomar conta de seus membros para voltar para casa, do que ajuda o inimigo, mas é fuzilado pelos próprios companheiros.

O preto e branco expressionista usado pelo autor, em conjunto com uma narrativa reflexiva, que leva o leitor a olhar demoradamente os quadros em busca de todo tipo de informação visual, torna a sensação de proximidade da morte quase palpável, assim como os gritos dos feridos agonizantes, o fedor dos corpos em decomposição, as vísceras expostas.

O avô de Tardi esteve na Primeira Guerra: certa vez, enquanto fugia de um bombardeio, caiu no chão, com as mãos dentro da barriga aberta de um morto. O fato, contado ao autor por sua avó, lhe marcou a vida para sempre. Era a Guerra de Trincheiras é o exorcismo dessa cena de pesadelo, um documento para honrar a memória daqueles milhões que lutaram no conflito e tiveram a juventude, e o futuro, arrancados das mãos.

A Nemo fez um trabalho editorial primoroso nesta edição. Além da capa dura e papel de alta gramatura, conta ainda com outro quadrinho sobre guerra feito por Tardi em 1984, Le Trou d’obus, e dois textos do autor comentando seu interesse pelo tema.

Classificação

5,0

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