EP

Por Lielson Zeni
Data: 3 fevereiro, 2012

EPEditora: Independente

Autores: Dalts e Magentaking (roteiro e arte).

Preço: R$ 15,00

Número de páginas: 48

Data de lançamento: Novembro de 2011

Sinopse

Um duelo de guitarristas pode ir muito além da música.

Positivo/Negativo

Certa vez, perguntaram a Neil Gaiman se ele não teria interesse em escrever biografias de bandas, já que a influência da música pop é muito evidente em seu trabalho. O roteirista britânico disse que não pensava nisso, porque os quadrinhos punham de lado o mais interessante de uma banda: a sua música. Afinal, por ser um recurso visual e não audiovisual, não é possível senti-la.

Ignorando-se discussões de novos formatos e tecnologias que permitem sonorizar as HQs e, neste momento, ainda mais se isso ainda seria quadrinhos ou outro novo formato, eis um problema que surgiu diante da dupla Dalts e Magentaking. Mas se voltará a isso adiante neste texto.

A ideia de banda de música passa pela produção coletiva, recebida de modo simultâneo. Não importa que John Lennon e George Harrison tenham gravado separadamente as guitarras em determinada faixa dos Beatles; o que vale é que o ouvinte encontra ambos os instrumentos ao mesmo tempo ao ouvir o disco.

Como os dois artistas trabalham nas páginas conjuntamente, repete-se assim o efeito de uma banda, pois o leitor percebe as diferenças de estilos, mas a harmonia dos traços torna a HQ melódica.

O formato escolhido, 12 cm de largura por 21 cm de altura, permite páginas duplas de quase meio metro, o que funciona muito bem em EP, dada a mistura dos traços, a quantidade de detalhes, a oposição entre as artes e a temática psicodélica.

Como uma boa obra pop, não poderiam faltar as referências, que representam músicos como deuses ou guias para os personagens.

A trama, bastante simples, mas não simplória, presta tributo ao tema do duplo. Os sósias são uma exteriorização metafórica de conflitos internos do protagonista. E esse conflito é dado ao leitor como um duelo de guitarristas.

A arte da dupla é linda e a cada página há um possível pôster ou camiseta. O conflito vai tomando formas cada vez mais abstratas, e é possível sentir a força e o impacto do som que há na história.

Finalmente, retorna-se ao ponto congelado lá em cima: como fazer música sem som? Não é possível afirmar que o que há dentro de EP seja música. Nem se pretende isso. O que há no gibi é uma impressão de som.

E de onde os artistas conseguem tirá-la?

Primeiramente, e mais importante: não há texto verbal na narrativa. Ao não usar textos, letras ou símbolos para as canções, a indicação da música torna-se voltada para dentro, mas não da revista, e sim do seu leitor.

É claro que o movimento corporal e a intensidade dos gestos dos personagens, somado às referências visuais pop, empurram o leitor para determinado tipo de palco sonoro, mas a modulação e equalização dessas “dicas” ficam por conta dos ouvidos de quem lê, que comporá a sua trilha sonora pessoal, fazendo versões de sua própria vida.

Talvez Gaiman estivesse certo sobre biografias de bandas, mas certamente estava errado sobre não poder sentir a música nos quadrinhos. Quem tem ouvidos, que ouça.

Depois deste EP, resta aguardar a chegada do restante da “discografia” de Dalts e Magentaking.

Classificação

3,5

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