El Eternauta – 50 Años – 1957-2007

Por Ricardo Malta Barbeira
Data: 18 fevereiro, 2011

El Eternauta - 50 Años - 1957-2007Editora: Doedytores – Edição especial

Autores: Héctor Germán Oesterheld (roteiro) e Francisco Solano López (arte).

Preço: 180 pesos argentinos

Número de páginas: 368

Data de lançamento: Dezembro de 2006

Sinopse

Tudo começou com uma neve mortal que caía em Buenos Aires. E o mundo nunca mais seria o mesmo…

Positivo/Negativo

Às três da manhã de uma madrugada qualquer do ano de 1959, um escritor de HQs recebe a visita de um estranho homem. Apresentando-se como o Eternauta, ele começa a contar a sua história.

Com esta simples premissa, o leitor é levado ao ano de 1963 e apresentado a Juan Salvo, Favalli, Lucas Herbert e Polsky. Amigos que têm a amistosa partida de truco que jogavam interrompida por estranhos ruídos. Em seguida, um súbito silêncio toma as ruas próximas. Pelo vidro da janela, eles observam a neve fosforescente que começa a cair sem saber o quanto isto afetará suas vidas dali em diante.

Quando Juan e seus amigos se veem presos dentro de sua casa, uma vez que o simples contato com a neve é mortal, a tensão que já existia se instala de maneira inequívoca. A princípio, eles próprios não fazem a mínima ideia de como proceder, mas o sangue frio e a mente analítica de Favalli fazem toda a diferença neste primeiro momento.

Ele analisa a situação, tenta acalmar seus companheiros e, por fim, explica as melhores opções que os ali presentes têm. Este modus operandi irá se repetir por várias vezes durante a trama.

Num primeiro instante, o leitor é levado a crer que Favalli age assim por possuir muita informação pertinente, pois é professor de física e também tinha como hobbie mexer com tudo relacionado à eletrônica. No entanto, após algum tempo, percebe-se que à medida que as coisas vão tomando outra proporção, seus atos também se alteram.

Das primeiras vezes, Favalli faz a análise pertinente e passa a certeza a seus companheiros do que é possível ser feito; e o leitor mais atento percebe que ele assim o faz, porque é necessário que alguém tome a frente da situação.

Após repetidas análises em variadas situações, Juan Salvo começa a perceber que seu amigo professor passa a fazer análises sem grande convicção. Um dos motivos é que para cada novo desafio que se apresenta, ele elaborava uma resposta satisfatória, mas à medida que os desafios crescem exponencialmente, as respostas vão minguando junto com o seu próprio espírito, racional por essência.

E é por volta desse ponto que os soldados argentinos começam a agregar outros valores à história.

Ao se unirem com a resistência local – pessoas como Juan e Favalli, que sobreviveram ao ataque inicial com a neve -, os soldados primeiro passam uma noção de hierarquia, convivência em grupo, dinâmicas de ataque e demais características inatas a militares. Da junção desses dois grupos de homens heterogêneos vem o grande mote de El Eternauta, o herói coletivo.

Quando encontram os Cascarudos, seres que se assemelham a escaravelhos gigantes, a princípio a derrota parece iminente, mas, aos poucos, o grupo de homens percebe como vencê-los.

O mesmo ocorre quando vislumbram os Gurbos – animais do tamanho de um elefante – e os Homens-Robôs, humanos controlados pelos invasores. A primeira impressão é sempre de que é impossível derrotar o inimigo, mas invariavelmente há alguém que lembra que a única opção é seguir em frente, pois não há desafio grande o bastante que justifique uma derrota sem luta.

Nas palavras do próprio Oesterheld, o único herói válido é o herói coletivo, um grupo de homens. Nunca um herói solitário.

E em El Eternauta não há um herói único, mas sim um grupo de homens lutando pela sobrevivência deles próprios, de seus companheiros e de suas famílias. É basicamente a história de indivíduos normais colocados numa situação limite, lutando contra algo muito maior do que eles individualmente, mas, possivelmente, não maior do que todos eles juntos.

Não é de se estranhar que o Eternauta tenha se tornado um símbolo portenho, uma vez que agrega tantos valores caros ao povo argentino. Vale lembrar que, na época da sua publicação, o país acabara de sair de uma ditadura que derrubara o então presidente Juan Domingo Perón, em 1955, e que viria a passar por outros golpes militares nas décadas seguintes, sendo o principal deles o último, que desencadeou o regime de exceção que durou de março de 1976 a outubro de 1983.

Ao começar a ler El Eternauta, dificilmente se está preparado para onde a história o levará. Ao mesmo tempo em que se trata do relato da invasão da cidade de Buenos Aires por extraterrestres, é também um retrato do que é feito o ser humano.

E, fora a ideologia do texto, há ainda a arte de Solano López para causar essa empatia com os argentinos, principalmente com aqueles que residem em Buenos Aires. Dentre os muitos locais em que ocorre a ação da história, estão o Estádio Monumental, casa do River Plate (tradicionalíssimo time de futebol), que é a base de operações da resistência; a Praça do Congresso, onde ficam instalados os invasores; e as “Barrancas de Belgrano”, onde Juan encontra um Mano pela primeira vez. Todos cartões postais da capital federal.

Sem contar que López faz um trabalho estupendo no que se refere às expressões dos personagens. É possível identificar sem muito esforço o medo e o horror em seus rostos, e, ocasionalmente, um sorriso indicando que talvez as coisas melhorem.

Com um roteiro inteligente, uma narrativa densa e uma arte precisa, El Eternauta é leitura essencial para quem quer entender mais sobre histórias em quadrinhos e sobre o ser humano em geral.

A edição, que foi lançada em homenagem aos 50 anos do personagem, tem capa cartonada, o mesmo formato das histórias originalmente publicadas na revista argentina Hora Cero Semanal(26 x 20 cm), entre os anos de 1957 e 1959. O prólogo e a revisão ficaram a cargo de Fernando Ariel García.

Vale mencionar que há versões posteriores de El Eternauta, como a de 1969, com roteiro do próprio Oesterheld e arte de Alberto Breccia; e outra que se inicia em 1976, com a mesma dupla criadora do personagem, e que é concluída com o roteirista já desaparecido nas mãos da opressora ditadura militar argentina, em 1977.

Fora essas, também houve histórias roteirizadas por Pablo Maiztegui, além de diversas versões não-autorizadas do personagem.

Está prometida para ainda este ano, pela editora Martins Fontes, a edição brasileira de El Eternauta, até hoje é inédito por aqui. Tomara que não fique apenas na promessa a publicação deste verdadeiro clássico dos quadrinhos mundiais.

Classificação

5,0

• Outros artigos escritos por

.