Egum

Por Hugo Canuto
Data: 24 abril, 2015

EgumEditora: independente (Oroboros) – Edição especial

Autores: André Alonso (roteiro), Anderson Cabral, Silvio DB, Eudetenis, Felipe Moreno, Tila Barrionuevo e Helena Cintra (artes).

Preço: R$ 40,00

Número de páginas: 120

Data de lançamento: Fevereiro de 2015

Sinopse

Rubens Carneiro é um cínico candidato a governador que morre em plena campanha, para logo despertar numa outra realidade, na qual terá que lidar com espíritos, demônios, sua relação com os encarnados e a busca por redenção.

Positivo/Negativo

Imaginar o que há além da vida inquieta o pensamento humano desde que as primeiras tribos habitavam cavernas. De epopeia de Gilgamesh, a jornada do Ka no antigo Egito ou a descida de Cristo ao inferno, a ideia de outras dimensões sempre esteve presente na literatura e na mitologia.

No Ocidente, a Odisseia e a Eneida narraram a descida dos heróis ao Hades, revelando parte do imaginário pagão sobre as regiões dos mortos. Muitos séculos depois, A Divina Comédia teceu uma costura entre as velhas lendas e o cristianismo, percorrendo círculos de sofrimentos e castigos nos quais filósofos, casais de amantes e políticos de famílias florentinas ardiam em danação.

Na América Latina, em seu pequeno conto Um Teólogo na Morte, baseado nas visões do místico Emanuel Swedenborg, Jorge Luis Borges escreveu sobre o despertar de um religioso no além-túmulo. Este, ao não se dar conta do próprio falecimento, continua atrelado às falsas ilusões da Terra, se tornando escravo de demônios.

Nos quadrinhos, são inúmeros os personagens e histórias que abordam o tema. Destaque para Sandman, de Neil Gaiman, no arco Estação das Brumas, no qual Sonho vai ao inferno guerrear com Lúcifer.

E é assim, seguindo pela “selva obscura” de Dante, Homero, Gaiman e Borges que André Alonso produziu Egum, acrescentando, contudo, a enorme riqueza das crenças e mitos do Brasil.

Das religiões de matriz africana, passando pela Umbanda e alguns conceitos espíritas, como a mediunidade, já na introdução, assinada pelo artista Laudo Ferreira, a obra deixa claro para o leitor que tem uma proposta diferente.

Para começar, a escolha do protagonista foge do lugar-comum. Não há heroísmo em suas atitudes, nem mesmo se pode definir Rubens Carneiro como um anti-herói. Ele é um “encosto” que permanece exercitando os desejos de poder, manipulando pessoas e que, nos raros momentos de preocupação com o outro, age porque lhe convém de alguma forma.

Ao longo da trilha, os demais personagens lhe servem como guias para explicar aquela nova realidade, conduzindo para o próximo nível, até que algo provoca um início de mudança na personalidade do político.

Em relação aos coadjuvantes, a maneira como o casal de gatos e principalmente Samael são introduzidos é muito boa, deixando no leitor a vontade de saber mais sobre quem são.

Infelizmente, os demais personagens foram pouco explorados nesta edição, que se concentra em situar o universo sincrético criado por Alonso e nas descobertas do protagonista. Resta torcer por uma possível continuação.

É a palavra sincretismo que define a obra Egum. A começar pela escolha da equipe de artistas provenientes de várias partes do País, refletida na diversidade de estilos, trabalhando para que a história se mantenha dinâmica. Os mesmos personagens são reinterpretados de maneiras diversas, indo do mangá à pintura digital, sem com isso perder a coerência, enriquecendo a experiência do leitor.

Sincretismo nas referências bem colocadas, a começar pelo rosto do cantor Eduardo Dussek, que casa com a personalidade de Rubens, nos cartazes em homenagem a quadrinhistas nacionais, como Danilo Beyruth e suas obras, nas frases literárias de Machado de Assis, nos arcanos das cartas de tarô etc.

E assim, sobrepondo camadas, André Alonso tece a trama, cadenciada pelas ilustrações de signos feitas por Tila Barrionuevo, que tangenciam a narrativa principal. Destaque para as imagens do Escorpião, Sagitário e Libra, de uma beleza incrível.

O autor aproveitou as páginas finas para explicar parte de suas inspirações. Isso não apenas enriquece a experiência da leitura como permite ampliar a visão do público para o processo de construção da história.

A edição da Oroboros tem papel de qualidade e design interessante, demonstrando que projetos oriundos de financiamento coletivo estão cada vez mais elaborados graficamente, apesar dos prazos irregulares.

Mas há alguns problemas na numeração das páginas (que a partir da 85 some e não mais retorna), vários de revisão (pontuação, acentuação, repetição da mesma palavra, de forma equivocada, no mesmo balão, na página 97, e até erros crassos, como um “consiência”, na 28, por exemplo). Coisas que podiam ser evitadas.

O grande equívoco de Egum, no entanto, é não deixar claro quais ilustradores produziram cada história. Apesar dos créditos na capa, foi uma falha feia não se criar uma relação objetiva entre artistas e as relativas páginas trabalhadas, dificultando para o leitor identificar os estilos e seus autores.

Ainda assim, não tira o mérito dessa iniciativa inovadora na produção nacional, um álbum feito para os iniciados nas grandes aventuras.

Classificação

4,0

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