Cuba – Minha revolução

Por Tiago Salviatti
Data: 28 fevereiro, 2014

Cuba – Minha revoluçãoEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Inverna Lockpez (roteiro), Dean Haspiel (arte) e José Villarubia (cores) – Originalmente em Cuba – My revolution

Preço: R$ 48,00

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Fevereiro de 2014

Sinopse

Seguindo a alvorada de um novo regime cubano pós-revolução de 1959, a obra conta a história da estudante de medicina Sonya, que viria a encontrar sua vocação nas artes, após os agouros vividos na Baía de Porcos, onde é presa e torturada.

Positivo/Negativo

Com uma arte embasbacante do brilhante Dean Haspiel (indicado ao Eisner por Billy Dogma, Street Code e a tira de quadrinhos online ACT-I-VATE), que se torna ainda mais expressiva com a colorização minimalista de José Villarubia, com apenas tons de branco, preto e vermelho, a história mescla elementos da biografia da artista plástica Inverna Lockpez (de sua vida e mudança de Cuba), apesar de retratar a história de “Sonya”.

Esse, porém é o grande ponto de dúvida do trabalho.

Ainda que seja uma história contundente, um drama pesado e aterrador, falta algo à narrativa de Inverna, uma certa maturidade visceral como a de Art Spiegelman em Maus, para oferecer efetiva credibilidade à trama, principalmente nos momentos em que o narrador oferece uma perspectiva mais abrangente – tentando demonstrar fatos e dados por meio da narração em off e de alucinações; e cenas que tentam contextualizar uma imagem maior que a dos personagens apresentados.

Mais que isso: para o leitor, é importante fazer a lição de casa e conhecer (muito) bem os preâmbulos da revolução cubana de 1959, e pelo menos algumas das ações e consequências desse conflito – como o embargo dos Estados Unidos, vigente desde 1962 (mesmo ano da crise cubana de mísseis).

E essa lição de casa muda completamente a compreensão da história e dos bastidores que levaram inclusive à publicação deste encadernado, porque é notável que existe um véu político reverberando a cada página, momento e situação apresentadas. O leitor menos antenado com os fatos pode se perder nisso, e entender menos – ou mesmo nada – dessa trama.

Como sugestões, deve-se destacar o livro An air war with Cuba: The United States campaign against Castro, de Daniel C Walsh (Ph.D em comunicação em massa da universidade da Carolina do Sul), que denota o uso do rádio como mecanismo de propaganda norte-americana contra o regime Castro, que, entre outras coisas, intensificou significativamente a tentativa de fuga em balsas clandestinas partindo da ilha desde 1988, assim como o filme Antes do anoitecer (Before night falls), de Julian Schnabel que conta a vida do artista plástico cubano Reinaldo Arenas, que é perseguido pelo regime cubano por ser homossexual.

Os quadrinhos também ajudam a contextualizar, ao menos um pouco, a revolução cubana por meio de Che – Os últimos dias de um herói (de Hector Oesterheld e Alberto Breccia), publicada no Brasil pela Conrad, e a biografia Castro (de Reinhard Kleist), lançada pela 8Inverso.

Talvez esse seja justamente o maior ponto negativo deste Cuba – Minha revolução, que não se esforça o suficiente para caracterizar todo contexto a ponto de, ao colocar o leitor a par dos acontecimentos, ser capaz de proporcionar mais reflexões e questionamentos (como praticamente todas as outras obras citadas anteriormente). Especialmente por tentar sintetizar um contexto longo demais em meras 144 páginas, menos da metade da supracitada Maus.

Como a obra foi lançada nos Estados Unidos, é fácil suspeitar que seja mera propaganda anti-Castro e anti-Cuba, principalmente por conta de um certo ar piegas e do horrível final, que tenta traçar como o panorama de “liberdade” a partida para os EUA. Mas, lendo com cuidado e atenção, vê-se que não é isso. O roteiro preza por defender a humanização de direitos e liberdades, especialmente aquelas que se perdem em um regime ditatorial.

Classificação

3,5

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