Cebolinha # 100 – Abril

Por Renato Félix
Data: 17 março, 2014

Cebolinha # 100Editora: Abril – Revista mensal

Autores: Estúdios Maurício de Sousa (roteiro e arte).

Preço: Cr$ 60,00 (valor da época)

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Maio de 1981

Sinopse

Duas HQs inéditas e seis republicações estreladas pelo Cebolinha, em comemoração à centésima edição da sua revista.

Positivo/Negativo

Ao contrário do que aconteceu na centésima edição de Mônica, em 1979, Cebolinha chegou ao número 100 com pompa e circunstância. A edição ganhou ares de almanaque, com mais páginas que o habitual, lombada quadrada, republicação caprichada de histórias – e a capa ainda apresenta o personagem de fraque e cartola, no palco, iluminado por um holofote.

A edição abre com dois pequenos textos introdutórios (um deles assinado por Mauricio de Sousa) e a inédita O Capitão Feio ataca o número 100. A trama é exatamente isso: inconformado pela chegada de Cebolinha ao centésimo número, o vilão ataca o Mauricio em pessoa para destruir a capa especial.

Um dos prazeres da história é que, ainda que fosse um personagem humorístico, o Capitão Feio de então ainda era um vilão para valer, e não o inimigo trapalhão quase inofensivo em que se converteu nas revistas de atuais – é só comparar, por exemplo, em como ele aparece na 500ª edição da própria Cebolinha, recém-publicada.

A história tem sua quantidade de inconsistências – a Magali, por exemplo, simplesmente desaparece da história a partir de certo momento. Muitas situações resolvidas com facilidade demais precisam ser explicadas no diálogo (“Havia uma passagem secreta naquela pilha de revistas velhas e empoeiradas!”).

Mas isso é compensado por uma trama muito agitada e os desenhos cheios de movimento de uma fase de ouro do estúdio. Além de um final surpreendente – até mesmo ousado –, no que diz respeito ao destino do Capitão Feio e uma então bastante incomum foto da equipe da MSP na época.

A partir daí, começam as republicações. São seis, com um detalhe curioso: cada uma é antecedida por uma página de uma história nova que as interliga. É o Cebolinha arrumando os gibis em seu quarto e o Cascão se oferecendo para ajudar, mas apenas parando para reler aventuras clássicas.

E nada de “novidades”: todas são anteriores ao número 50 (bons tempos em que essas indicações vinham em cada história). Começando por Os chefes (# 45), uma divertida comédia de erros em que as crianças brincam de um guerra de índios, tema que seria vetado hoje nos gibis da turma.

O mais cabeludo da rua (# 28) mostra traços mais antigos. Cebolinha usa um tônico capilar que o faz virar praticamente um Floquinho humano, e as gags que se desenvolvem a partir dessa premissa são muito boas e parecem não ter limites.

Rouco ou louco (# 33) é uma das mais engraçadas da edição. Também é uma profusão de gags, quase esquetes, a partir de uma premissa central: Cebolinha sussurra para o Cascão que está “rouco” e o amigo, claro, entende que ele está “louco”.

Falando nele, o personagem dá as caras na história seguinte, Loucuras do Louco (# 40). Ainda é de uma época em que o Cebolinha não antecipava as agruras que iria sofrer logo que dá de cara com o personagem surrealista. Aliás, em uma narrativa muito bem cuidada, o nível de loucura vai subindo aos poucos, da quase normalidade ao absurdo total.

O planão (# 34), em seguida, é uma das melhores histórias de plano infalível já feitas. Das 13 páginas, Cebolinha leva nada menos que sete para convencer o parceiro Cascão e explicar por que ele deve fingir ser um costureiro francês para derrotarem a Mônica. Uma aula de cadência narrativa em tempos em que o ritmo das histórias muitas vezes peca pela pressa.

Aqui, o que conta – quase tanto quanto o plano em si – é o desenho riquíssimo nos cenários, ângulos de visão e expressão dos personagens, e os diálogos precisam e que levam o tempo que devem levar.

A última republicação é justamente a mais antiga: Cebolinha acha um chapéu, de 1973. Nela, nosso herói encontra um chapéu, mas o dito cujo o faz ler pensamentos. Quando o menino resolve enfrentar a Mônica a surpresa: “A Mônica não pensa: age”, conclui.

Uma história simples, cuja curiosidade era mesmo o traço mais antigo, já difícil de ver quando esta revista foi publicada. Os almanaques saíam com uma periodicidade bem menor na época, mas os do Cebolinha já haviam coberto essa primeira fase de suas aventuras.

A última HQ, inédita, retoma a comemoração do número 100 e, curiosamente, é estrelada pelo Bidu. Partindo do final da história de abertura, mostra o cachorrinho às voltas com a poeira do Capitão Feio para uma gag final.

A tira da última página é premonitória (ou uma pequena jogada de marketing): com uma pontinha de ciúme, Cascão começa a escrever sua própria revista. Efetivamente, ele e o Chico Bento ganhariam seus títulos já no ano seguinte.

Esta é uma edição especial feita com capricho da capa à tira final, com uma seleção de histórias que, além de ótima, dá atenção a diferentes aspectos do Cebolinha.

O marco importante – considerando que então nosso mercado de quadrinhos era ainda mais difícil do que é hoje – foi intensamente comemorado e o convite da capa (“Venha comemolar comigo!”) não foi à toa. Os leitores pequenos e adultos certamente sentiram (e ainda sentem, ao ter o exemplar nas mãos) o clima de festa em cada página.

Classificação

5,0

• Outros artigos escritos por

.