A boca quente # 2

Por Audaci Junior
Data: 14 outubro, 2016

A boca quente # 2Editora: independente – Série sem um número definido de edições

Autor: Shiko (roteiro e desenhos).

Preço: R$ 20,00

Número de páginas: 32

Data de lançamento: Setembro de 2016

Sinopse

Na Interzona, onde ninguém vive muito, continua a onda de misteriosas mortes de gente graúda, todas cometidas por uma incendiária que afana os veículos das suas vítimas.

Quando a noite monta o palco, todos já sabem qual é o seu papel: o detetive tenta resolver as tretas entre uma trepada e umas tacadas no jogo de bilhar, a filha do pastor foge com o Palhaço Topada pra virar a monga, um matador encontra o que veio procurar e Nina goza sem fingir, pega a grana e dispensa a clientela.

Positivo/Negativo

Na linguagem de boteco, “pingado” é aquele café com leite que se serve no copo de requeijão. A conta-gotas também está sendo o novo projeto de Shiko, de forma seriada e sem um número definido de edições. Em outras palavras, a seu bel-prazer, com toda a liberdade das HQs independentes.

Vindo de fanzines nos anos 1990, A boca quente é um retorno às origens do autor, mais de uma maneira de conteúdo do que formal. Seu Marginal Zine tinha histórias autocontidas, que terminavam ali, nas páginas fotocopiadas e grampeadas uma a uma das edições limitadíssimas comercializadas por ele mesmo.

Vício, prostituição, decadência e sexo é o que promete a capa desta segunda parte. Algumas ideias que foram apresentadas na revista anterior são mais bem delineadas e outras ainda seguem com as pontas soltas.

Mantendo a narrativa em off dos recordatórios afiada como as facas do matador anônimo, os detalhados desenhos de Shiko fazem jus ao pandemônio da Interzona, elemento retirado do livro Almoço Nu e da coletânea de contos que leva o mesmo nome do local fictício, criação da cabeça do William S. Burroughs (1914-1997).

O nome Interzona é inspirado na Zona Internacional em Tânger, cidade cosmopolita e boêmia ao norte de Marrocos, onde o escritor norte-americano chegou a viver nos anos 1950.

A Interzona de Shiko tem todos esses ecos de decadência e marginalidade como uma colcha de retalhos arquitetônica. Não é só a cidade que é mais um personagem em A boca quente, mas também seus “figurantes”, que se amontoam nas poucas páginas.

A leitura fica mais lenta para apreciar os grafites, pichações, placas, dizeres nas camisas, tatuagens, figuras robóticas ou que se parecem com personalidades cult, como o cineasta David Lynch. A sinestesia cinematográfica das sequências da primeira parte se acalmou, mas o frisson gráfico dos tipos criados pelo quadrinhista continua por aqui.

Mesmo com toda a qualidade narrativa e plástica, este segundo volume não avança tanto na trama, aumentando ainda mais a curiosidade dos caminhos e destinos de seus protagonistas.

Sem revelar muito, preste atenção em nomes como Mathilda e Stansfield, personagens do longa-metragem O Profissional (1994), do francês Luc Besson, inspiração que abre a história no primeiro tomo.

Editorialmente falando, há muitos problemas na publicação, o que pode ser “justificado” pela liberdade “fanzineira”, mas que não deixam de ser erros, independentemente do seu formato. Continuam as escorregadas na revisão, principalmente no uso de pontuação (Shiko não gosta de usar o ponto final nas suas frases, um fato).

As letras sem preocupação de serem padronizadas, desalinhadas, por vezes espremidas nos balões e recordatórios, casam muito bem com a proposta caótica e marginalizada da HQ. Problema seria se o leitor tivesse dificuldade de ler os textos, o que não acontece.

Para somar aos pontos negativos, quase não há margem nos dizeres apresentados na quarta capa, o que esteticamente deixa a composição feia.

Com capa cartonada sem orelhas, papel pólen com boa gramatura e impressão, a edição independente tem formato 20 x 28 cm, maior que a primeira parte (com formato 19 x 27 cm).

Mesmo com exatamente um ano de intervalo entre o lançamento da primeira e segunda edições, A boca quente ainda é uma leitura prazerosa e agradável que – infelizmente – acaba logo, como aquele pingado de boteco servido num copo de requeijão.

Classificação

3,0

• Outros artigos escritos por

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  • Taverna Pop

    Poxa. Gosto muito do trabalho do Shiko. O complicado é esse tipo de lançamento tão restrito e com tão poucas páginas. Além de sair muito caro ainda esgota muito rápido. Melhor seria lançar como ele fez com Lavagem, com mais páginas, em capa dura e com uma história completa. Ou ainda lançar pelo Catarse, que com certeza seria viabilizado…

    • Beto Magnun

      Eu comprei o nº1 junto com o Lavagem. “Boca Quente” é mais pra ficar um bom tempo babando na arte do que lendo a história.