ALIAS

Por Marcelo Miranda
Data: 1 dezembro, 2010

ALIAS

Editora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Brian Michael Bendis (roteiro) e Michael Gaydos (arte).

Preço: R$ 62,00

Número de páginas: 216

Data de lançamento: Agosto de 2010

 

Sinopse

Quando percebeu que seus superpoderes não a tornavam nem um pouco especial, Jessica Jones desistiu da carreira de super-heroína e se tornou detetive particular. Proprietária e única funcionária da Codinome Investigações, ela agora ganha a vida resolvendo casos sem importância, longe do charme e do fascínio do universo dos grandes heróis.

Amarga, ressentida e autodestrutiva, Jessica enfrenta a depressão e o complexo de inferioridade à base de cigarros e bebida enquanto afunda na mediocridade de seu dia a dia.

Positivo/Negativo

Um dos principais atrativos desta edição luxuosa de Alias é simples e, ao mesmo tempo, bastante especial: ler em sequência as incríveis histórias protagonizadas pela ex-heroína Jessica Jones, criada por Brian Michael Bendis. Surgida em 2001 numa revista mensal e publicada no Brasil a partir de setembro de 2003, no mix de Marvel Max, da Panini, a série ganha ainda mais força quando seguida num só fôlego.

As tramas de Bendis, famosas pela lentidão dos acontecimentos em prol de um profundo desenvolvimento dos personagens, têm peso distinto quando acompanhadas em conjunto. Isso porque, entre outros fatores, esperar 30 dias pelo próximo episódio tende a quebrar o ritmo e dar a sensação de que nada acontece.

Pois o encadernado de Alias prova que, sim, muita coisa acontece nesta inteligente e bem urdida HQ. Devagar, os rumos de Jessica Jones vão sendo construídos pelo cuidadoso roteiro de Bendis, que tem em Michael Gaydos um autêntico coautor. Os desenhos dialogam de maneira brilhante com o texto, a ponto de um parecer “puxar” o outro para dentro (e fora) de cada quadro.

Gaydos tem traços que remetem ao clima noir das boas histórias de mistério, com ar decadente e fétido de alguns ambientes por onde a protagonista circula. Seus enquadramentos, planos e contraplanos, as expressões faciais e especialmente a utilização estética do vazio em várias páginas aumentam mais o impacto. O desenhista ainda faz rimas visuais de acordo com o estado de espírito de Jones, sempre segundo o caminho seguido por Bendis.

Isso fica evidente na comparação entre a “entrevista” de Jones com uma cliente na edição # 1 e a situação similar, na # 7: em cada momento, a moça está numa fase distinta de suas angústias e, para cada uma, Gaydos modifica cores e olhares a partir de informações que sabemos via roteiro.

Poucas vezes se vê num quadrinho industrial (vale lembrar que Alias era publicado pela Marvel, ainda que num selo voltado ao leitor adulto) uma parceria tão orgânica como aqui.

Espécie de mistura entre Marvels (1994, Kurt Busiek e Alex Ross) e Watchmen (1985, Alan Moore e Dave Gibbons), Alias narra o dia a dia melancólico de Jessica, antes conhecida como a super-heroína Safira.

Cansada de utilizar seus poderes dentro de um colante ridículo (como ela mesma define), a moça abre uma agência de investigações particulares. Mas Jessica sente a vida esvaziada e não encontra seu próprio lugar no mundo.

No momento mais forte da primeira edição, durante uma transa com o mercenário Luke Cage, ela reflete consigo mesma: “Não posso dizer que me importo. Não tô nem aí pro que ele sente. Eu só quero sentir alguma coisa. Não importa o quê. Dor. Submissão. Raiva. Só quero sentir alguma coisa diferente”.

Surpreende, a princípio, que uma personagem tão autodestrutiva e depressiva mantenha o interesse do leitor. Pois Bendis e Gaydos fazem Jessica transitar em tramas inusitadas e sempre hipnóticas – e sem deixarem de falar do universo Marvel num contexto mais amplo a partir de um imaginário exterior às batalhas aventurescas contra megavilões.

Há participações do Capitão América, de Matt Murdock, Cage, Carol Danvers, J. Jonah Jameson, mas nada disso torna Alias presa a cronologias ou “compromissos” em soar fantasioso como uma história do Homem-Aranha ou do Demolidor. O que mais encanta na série é a tangibilidade de Jessica. É quase possível tocá-la a cada virada de página.

Este encadernado inclui dez histórias de Alias (de um total de 26, que foi quanto durou a série) e um mix de duas páginas com reprodução das capas originais. Faltou um texto introdutório que falasse algo sobre a importância da personagem ou mesmo a respeito do selo Marvel Max.

Trata-se de outro exemplar de luxo da Panini: com capa dura e mais de 200 páginas em papel couché. Mas preço é pouco convidativo. Apesar de o material merecer o melhor tratamento possível, o valor pode impedir diversos novos leitores de mergulharem no fascinante mundo de Alias.

Classificação:

4,0

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