Mangás: os novos donos do mundo dos quadrinhos?

Por Marcus Ramone
Data: 9 novembro, 2015
Por Marcus Ramone e Pablo Casado

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Mais do que uma batalha pela preferência dos leitores, os mangás disputam com os comics norte-americanos os apertados espaços de mercado e até mesmo influências culturais. 

 

Vem de muito tempo a rixa mercadológica e ideológica entre norte-americanos e japoneses no que diz respeito às suas produções de histórias em quadrinhos. Não somente entre eles, mas também envolvendo consumidores de outras nacionalidades espalhados pelo mundo. Basta uma rápida visita a uma comunidade virtual, fórum ou lista de discussão relacionada aos comics ou aos mangás para se deparar com opiniões acaloradas sobre qual estilo é o melhor.

O jornalista japonês Yoshikazu Hayashida apimentou ainda mais o caldo desse debate há poucos anos, ao publicar um artigo no site nipônico Oh My News, traduzido e reproduzido pelo norte-americano Manganews. No texto, ele discursa sobre a carreira mundial bem-sucedida dos quadrinhos de sua terra e explica por que o mesmo não acontece com aqueles produzidos pelos filhos do Tio Sam.

Segundo Hayashida, o fato de os quadrinhos norte-americanos utilizarem o inglês, o idioma mais conhecido do planeta, não seria necessariamente uma vantagem contra os mangás. E ele explica isso em duas teorias: o uso de papel de baixa qualidade por parte das publicações executadas no Japão e o fato de os publishers nipônicos serem melhores do que os norte-americanos.

MangásMangás

Na Terra do Sol Nascente, as revistas semanais de quadrinhos – antologias tão volumosas quanto listas telefônicas – têm seu miolo em papel reciclado. Inclusive, como informa o artigo, uma das principais revistas do país é conhecida historicamente pela péssima qualidade do papel que utiliza. Para Hayashida, a vantagem desse modus operandi é a viabilidade econômica de um volume maior de histórias a serem publicadas.

Boa parte dessa produção norte-americana (principalmente a do mercado mainstream) é realizada com páginas coloridas de boa qualidade. O que, para muitos, encarece o custo e limita as edições mensais a terem, em média, cerca de 30 páginas. Somando isso à distribuição mensal dos títulos, a variação entre a quantidade do que é produzido em cada país é gritante.

A respeito disso, durante a crise econômica mundial de 2008 surgiu uma discussão que ganhou certa repercussão em sites, blogs e fóruns na grande rede nos Estados Unidos: a adoção do tamanho dos mangás nos gibis mensais, em detrimento do prestige (formato americano), como alternativa para tornar os preços dos comics mais acessíveis.

Um debate sem grandes pretensões e que logo se dissipou, mas ainda assim curioso por envolver duas tradições tão distintas, em que uma delas invadiu a seara da outra sem pedir licença.

Produções internas

A quantidade de mangás publicados atualmente nos Estados Unidos só não é maior do que no Japão. Desde 2002, o mercado norte-americano de mangás triplicou, movimentando mais de 200 milhões de dólares, segundo informações divulgadas em um artigo da revista Time. Apesar de uma queda progressiva nos últimos anos, os números ainda são espantosos e incomodam a concorrência.

Além de editoras antigas que aderiram à produção de mangás próprios ou reeditam os originais japoneses, surgiram, já na década de 1990, outras exclusivamente para esse fim. Como a Tokyopop, que quase fechou as portas nos Estados Unidos, em 2011, depois de perder o licenciamento com a japonesa Kodansha, incomodada com a iniciativa caseira e a aposta no mercado digital promovidas pela parceira norte-americana. A editora, que chegou a publicar cerca de 400 títulos por ano (dos quais mais de 300 eram criações próprias), foi a primeira nos EUA a lançar HQs japonesas sem espelhar as páginas, mantendo a ordem original de leitura dos quadros.

As produções caseiras vendem, em média, quase o dobro da quantidade que os títulos traduzidos dos originais japoneses conseguem alcançar. Isso fez com que se abrisse uma nova frente de trabalho, já no início da década atual, e muitos novos autores vêm despontando nesse cenário.

Mangá norte-americano Rave MasterRave Master

No Japão, com apenas alguns títulos de renome junto ao público, é possível a uma publicação obter um bom índice de vendagem, permitindo que o restante do material disponibilizado no miolo possa contar com novos autores e mangás mais “experimentais”. Eventualmente, alguns deles podem atingir o sucesso de público, tornando-se mais um chamariz da revista.

E o que estimula os autores japoneses é outro elemento ausente (em parte) para os norte-americanos: a manutenção dos direitos autorais das histórias para os próprios artistas em um cenário não dominado pelas criações de longa data de grandes editoras – no caso, a referência, obviamente, está relacionada à Marvel e à DC Comics. No entanto, editoras como Image, Dark Horse e Oni Press são exemplos de selos que oferecem bons acordos de copyright de suas publicações. A Vertigo e a WildStorm, subdivisões da própria DC, também se encaixam nesse quesito.

Mas a distância entre a produtividade satisfatória dos dois mercados vai além disso.

Arte

Há muitos anos, as vendas em solo norte-americano não têm mostrado grandes cifras – ao menos se comparadas a tempos mais áureos. Ocorrência que se mantém, em grande parte, devido à centralização da distribuição via mercado direto, gerenciada pela Diamond.

Isso não invalida os argumentos sobre a diferença de alcance entre mangás e comics mundo afora – favoráveis aos primeiros –, mas deve ser levado em conta.

E até mesmo esses argumentos se restringem a pontos pequenos de uma indústria que há anos tem se mostrado mestra na geração de itens de consumo pop. As pessoas não apenas leem o mangá feito pelos japoneses, mas também assistem ao desenho animado que o adapta, compram o boneco articulado, camisas e muitos artigos relacionados. Existem apelo e publicidade espontâneos em torno do estilo.

Além disso, no Japão não há distinção no tratamento dado aos quadrinhos e seus artistas e ao que é destinado aos escritores de prosa. Visão similar e não menos empolgada pode ser encontrada na Europa, que concede atestado de arte às suas produções.

Independentemente da rotulação e apreciação, o interessante é notar como o japoneses são capazes de associar o respeito a essa manifestação artística com uma estrutura administrativa e comercial de sucesso. Mesmo no atual momento de estagnação do mercado interno.

Arte de Nihon Chinbotsu

Expansão

O que vem acontecendo nos Estados Unidos é muito mais do que se possa chamar de casos isolados ou passageiros da presença do mangá naquelas paragens. A influência dos quadrinhos e desenhos animados nipônicos já se enraizou de forma indelével nesses nichos do mercado da cultura pop norte-americana.

Não à toa, há poucos meses o presidente Barack Obama agradeceu publicamente ao Japão pelos mangás e animês.

Foi também graças à invasão dos quadrinhos japoneses em um território antes dominado pelos super-heróis, que a Marvel e a DC passaram a publicar gibis direcionados ao público jovem feminino.

Isso porque os shojo, mangás feitos para garotas, fizeram a cabeça das jovens e promoveram um fenômeno antes inimaginável nas comics shops norte-americanas: a presença maciça de meninas adolescentes vasculhando as prateleiras em busca de seu gibi preferido. Essas gibiterias agora possuem grandes espaços reservados especialmente para esse estilo de HQ.

É um segmento de mercado no qual as duas maiores editoras de quadrinhos dos EUA já se aventuram nos anos 1960 e 1970, mas de forma não muito eficiente.

Na época, pululavam gibis com temática romântica, reduzindo a isso o que as editoras pareciam entender ser o único interesse das leitoras de quadrinhos. Por sua vez, os shojo tratam de assuntos como crises existenciais, conflitos de gerações, drogas, alcoolismo, menstruação e até homossexualidade, além do romantismo que não poderia faltar nesse caldo de sentimentos e situações vividos por adolescentes de qualquer parte do mundo.

A Marvel chegou ainda a criar um universo alternativo dedicado ao mangá, o Mangaverso, no qual heróis como Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e muitos outros eram retratados com os olhos esbugalhados e bocas enormes tradicionais do modelo nipônico, embora os quadrinhos japoneses estejam longe de ser limitados a essa característica.

MangaversoMangaverso

Brasil

Apesar de, desde a década de 1970, os animês já visitarem as telas pequenas brasileiras, foi somente nos anos 1980 que os mangás começaram sua invasão ao País. De lá para cá, o tsunami de HQs japonesas que engoliu o mundo também atingiu o Brasil e seus efeitos não apenas estão presentes até hoje, como permanecem se alastrando.

Produções nacionais, de forma caseira, independente ou comercial (Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano, continua sendo o baluarte do “mangá brasileiro”) já rivalizam com as de outros gêneros. E editoras como a JBC, especializada em quadrinhos japoneses, e a Panini municiam o mercado mensalmente com dezenas de títulos.

Assim como nos Estados Unidos, por aqui alguns personagens mainstream  também se renderam ao estilo mangá. Foi o caso da Turma da Mônica, cuja versão jovem é a estrela de uma das revistas em quadrinhos mais vendidas no Brasil.

Holy AvengerHoly Avenger

Mais do que isso, tanto no País quanto em qualquer outra parte do mundo, as HQs japonesas ultrapassaram os limites do requadros das páginas e atingiram gostos, hábitos e comportamentos de crianças e jovens, de uma forma que os comics norte-americanos jamais conseguiram chegar perto.

E tudo por causa desses gibis que saíram do Japão, seduziram e dominaram o mundo de forma amistosa e ainda ousaram influenciar o mercado consumidor de quadrinhos – e de cultura pop em  geral – do resto do planeta.

Marcus Ramone e Pablo Casado apreciam todos os estilos de quadrinhos, cada um com sua maior preferência, e desejam que todos eles sejam sempre acessíveis a qualquer leitor, em qualquer parte do mundo.

• Outros artigos escritos por

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  • Walker

    Nada a ver cara. Só procurar que você acha

    • Stefano Barbosa

      mande link, pls

  • Sávio Morais Cristofoletti

    Acho que existem públicos para todos os tipos de quadrinhos, o que mais vale é a qualidade, não a quantidade de histórias produzidas!

    Até mesmo os quadrinhos espanhóis, que não são tão populares quanto os americanos e japoneses já ganharam seu espaço, o que pode ser facilmente confirmado por matérias como essa aqui: http://www.ochaplin.com/2014/10/exposicao-sobre-quadrinhos-espanhois-e-destaque-na-fliq.html!

    A propósito, para quem se interessar, analise minha coleção de quadrinhos, livros e filmes em meu blog: http://companheirosdehonra.blogspot.com/2015/04/lista-de-revistas-em-quadrinhos-livros.html!

    Como podem ver, ando evitando comprar material da Marvel Comics, primeiro porque acho que muitas temáticas são repetidas excessivamente nas histórias da editora, segundo porque são lançadas revistas em quadrinhos e romances gráficos demais em fração de dias e não estava dando conta de acompanhar, especialmente se levarmos em conta que os encadernados da empresa muitas vezes fazem alusões diretas e indiretas a produções mais antigas, o que me leva a acreditar que não compensa comprar apenas um punhado de encadernados se as tramas de muitos deles repercutem em outros mais!

    O chato também é que ando com bastantes complicações em manter minha coleção, basta ver o tanto de obra que falta, se alguém aqui souber de algum local em que venda alguma coisa que falte em minha lista e que não seja o MercadoLivre e Estante Virtual, agradecerei bastante pela colaboração!

    Também estou atrás de quadrinhos espanhóis, quem aqui me indica algum?

  • Mateus Enout

    Os mesmos roteiros que giram basicamente em torno de peitos balançando e cenas ”engraçadinhas” de mulheres sendo molestadas ou os roteiros que se baseiam apenas em violência e sexo gratuitos?

  • Willian Martins

    Po Marucs, se você realmente quer defender quem lê quadrinhos americanos, deveria ao menos ter uma critica mais construtiva. É claro que a opinião que você formou a respeito dos mangás não foi feita lendo e acompanhando esse mercado, porque se não saberia que você está sendo totalmente equivocado ao dizer tamanha asneira.

    Quanto ao Rodrigo, eu concordo em partes. Mas temos que levar em conta que são dois mercados diferente. O conteúdo do quadrinho americano é formado pela editora que detém todos os direitos dos personagens e histórias. Ela contrata seus editores, desenhistas e a turma toda para escrever uma história que ela mesmo planeja e influencia o roteiro. Enquanto no Japão as editoras procuram por “mangakas” que possuem uma história piloto que eles acham que vá vender, a editora contrata essa pessoa e ganha uma porcentagem bem alta em cima da venda das publicações dessa história, mas os direitos são do autor, inclusive temos mangás que quando a venda esta baixa eles obrigam o autor a escrever um final pra história para encerrar a publicação. Em alguns casos o autor procura outra editora pra continuar a publicação, e ele simplesmente troca. Então você vê que é bem diferente o jeito como as editoras Japonesas e Americanas tratam suas publicações.

    E quanto a qualidade, realmente Hq tem menos paginas, mas não podemos desmerecer que a qualidade é muito superior, o papel é melhor, é colorido, tem tratamento muito melhor. Os americanos tem um mês inteiro para trabalhar em cima de uma publicação de publicação de 50 paginas, enquanto no japão o autor tem que entrega 1 capitulo pronto toda semana. Isso obviamente afeta a qualidade dos materiais.

    Temos varias discrepâncias entre as duas, assim como temos leitores para os dois mercados. Aquele que lê só mangá e aquele que lê só quadrinhos americanos. Além daqueles que leem os dois.

    Não vamos começar uma guerra tão banal.

  • Stiles Stilinski Nogitsune

    Ótima matéria, Parabéns! Gostaria muito de uma matéria assim, com uma visão “panorâmica” sobre como o manga vem inspirando e influenciando as HQs nas ultimas décadas e vice versa.

  • poderazul

    eu gosto do papel de mangá tenho ma hq americana e achei o papel dela muito liso e brilhoso (feio)

    • Canoa Furada

      No caso em questão, não me referi à preferência pessoal por determinado tipo de papel, apenas atestei a vantagem gráfica dos mangás como citada pelo autor japonês citado no artigo.