A catrefa dos bons costumes vem aí

Por Eduardo Nasi
Data: 20 maio, 2009

Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol
Esta semana comecei a escrever uma coluna sobre alguns riscos que a expansão
(1) do mercado de quadrinhos poderiam trazer para artistas, editores e
leitores. Nela, eu especulava sobre a possibilidade de o suposto boom
atrair a atenção dos velhos guardiões da moral e dos bons costumes. E
questionava, por exemplo, o estrago que essa catrefa poderia fazer com
um exemplar de Lost girls nas mãos.

Não deu nem tempo de o texto ser publicado. Ontem mesmo, o jornal Folha
de S.Paulo
publicou a reportagem SP distribui a escolas livro com
palavrões
, sobre a distribuição da HQ sobre futebol Dez
na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol
para crianças de nove
anos usarem em sala de aula. O repórter Fábio Takahashi cita as expressões
“chupa rola”, “cu” e “chupava ela todinha” como inadequadas. E eu, que
não sou educador nem pedagogo, até acho que são mesmo. Para o público
infantil.

Em entrevista à TV Globo, o governador de São Paulo, José Serra,
disse na tarde ontem que achou o livro de mau gosto. Deu paulada nos artistas
e na editora.

Homunculus
O problema não é o álbum. Óbvio que não. O problema, claro, é que alguma
besta do governo (2) indicou o livro para compra porque deve ter considerado
que era uma boa recomendação.

Para se proteger, Serra jogou a culpa no lado mais fraco: a HQ. É uma
atitude covarde. Mas recorrente em políticos acuados pelas barbaridades
que fazem.

Mas o caso reflete uma situação que, certamente, vai se repetir nos próximos
anos.

Durante muitos anos, os quadrinhos estiveram no ostracismo. Com exceção
das revistas infantis, em especial as criações de Mauricio de Sousa e
de um ou outro mangá, as HQs eram consumidas por alguns poucos milhares
de leitores abnegados, esparsos em uma população de milhões de pessoas.
Em bom português, os quadrinhos eram irrelevantes.

Negima
Foi assim que títulos ousados como Lost girls e Homunculus,
o trabalho de Marcatti e Hideshi Hino e até os mangás teen Gravitation
e Negima foram lançados sem ninguém encher a paciência.

Enquanto os quadrinhos eram nanicos, era fácil. Mas agora a coisa corre
o risco de complicar.

Digamos que um líder religioso resolvesse erguer uma cruzada contra Lost
girls
, obra-prima de Alan Moore e Melinda Gebbie. Daria pano pra manga:
é um álbum que pega três personagens de histórias infantis e as reintroduz,
ainda que mais velhas, em uma trama pornográfica bem libertária. Tem de
tudo: heterossexualismo, homossexualismo, pansexualismo… De tantas que
são, nem vale a pena listar as modalidades praticadas. Mas tem coisa ali
que duvido que apareça em revistas pornôs vendidas em bancas.

Num culto dessas igrejas novas, imensas, montadas em estacionamentos e
cinemas antigos, provavelmente tem mais público em uma sessão do que Lost
girls
tem de leitores no Brasil inteiro. Comparar com a TV, então,
é covardia. Melhor nem tentar.

Lost Girls
Outro exemplo: vai que um senador resolvesse discursar contra a violência
das HQs do vigilante Justiceiro, da Marvel. Provavelmente, a TV
Senado
e a Voz do Brasil ajudariam a elevar as vendas de Marvel
Max
, e isso sem contar com nenhuma repercussão da imprensa.

Só que, nos últimos tempos, os quadrinhos começaram a aparecer bastante.
De certa forma, voltaram à moda. Entraram até nas escolas, cumprindo uma
meta histórica. A consequência disso é que não vai faltar gente pra defender
as crianças e adolescentes e a moral e os bons costumes de terríveis malefícios
causados pelos gibis, sejam eles quais forem.

Marvel Max
Acho que pode até mesmo surgir um Fredric
Wertham
tupiniquim – mas sinceramente duvido que ele terá a sagacidade
intelectual do original.

Não adianta pensar que argumentar com lógica vai resolver. Extremistas
são intransigentes, teimosos e não gostam de diálogo. A rigor, não prestam.
São baixos. Não valem a pena.

Perto do novo cenário, o caso de Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém
no Gol
tem tudo para ser fichinha.

A única reação possível contra a catrefa é o mercado de quadrinhos ter
uma postura firme. Editores, autores, leitores, jornalistas especializados,
varejistas e leitores precisam estar preparados, ter ideias sedimentadas,
argumentos afiados e uma postura imbatível. A briga vai ser grande.

Afinal, os quadrinhos queriam crescer e ocupar mais espaços. Conseguiram.
Agora chegou a hora de amadurecer.

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do Universo HQ
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Eduardo Nasi não entende nada de futebol, mas sabe muito de quadrinhos; e, infelizmente, não se surpreende quando pessoas mal-informadas (ou mal-intencionadas) espalham um preconceito tolo contra a arte seqüencial como se estivessem nos anos de 1950.

Notas

1) Nas bancas, há uma boa variedade de mangás, de vários estilos. Os super-heróis, embora desfavorecidos por muitas histórias ruins, vêm recebendo um tratamento digno e estável da Panini há cinco anos, tanto em bancas quanto em livrarias.

Aliás, as livrarias vêm sendo abastecidas por bons títulos de vários cantos do mundo por editoras como Devir, Companhia das Letras, Zarabatana, Desiderata e outras. Diz-se que a Cosac Naïfy se une a elas em breve, juntamente com outras mais conhecidas por lançar ficção e não-ficção. A Conrad, pelo visto, se reergueu após a venda para o Ibep.

No campo das infanto-juvenis, a Turma da Mônica Jovem conseguiu fazer um lançamento espantoso – o maior desta década, com mais de 400 mil exemplares vendidos. Mas os artistas brasileiros também lançam HQs em menores proporções – aqui e em outros países.

Em meio a todo esse mercado, os independentes estão articulados tanto no coletivo mais badalado, o Quarto Mundo, quanto em movimentos espalhados por todo o Brasil, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul.

Fora dos quadrinhos em si, os personagens de HQs ganharam destaque nos cinemas e na TV.
Mesmo assim, não há só boas notícias: a Ediouro encerrou o contrato que permitia a Pixel Media publicar os bons títulos de Vertigo e Wildstorm no Brasil. E a Globo tirou suas HQs das bancas ainda no ano passado. Mas um mercado movimentado não é feito só de conquistas.

2) Talvez tenha sido o mesmo burocrata que liberou um livro didático com dois Paraguais, embora isso seja difícil de avaliar. Como se sabe, o Poder Executivo brasileiro não é um celeiro de competentes.

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